quinta-feira, 27 de dezembro de 2012
quarta-feira, 2 de novembro de 2011
terça-feira, 31 de maio de 2011
domingo, 10 de abril de 2011
Sobre a
exposição “Aquário dos animais” (Thais Rivitti)
De onde vem essas figuras estranhas que habitam as pinturas de
Tatiana Cavinato?
Onde essas criaturas vivem? Como se atrevem a surgir na tela,
assim, de chofre, com tão poucas referências ao mundo cotidiano, às ruas de
grandes metrópoles contemporâneas, às imagens publicitárias, a programação da
TV, aos personagens mais ou menos banais que nos habituamos a encontrar por aí?
Essas pinturas nos provocam. Contrariam, de certa forma, um
caminho profícuo aberto também por outros jovens pintores: o de recolher
imagens comuns, da internet ou de câmeras de vigilância, por exemplo, e
transportá-las para o interior do campo pictórico. As pinturas de Tatiana quase
nos indignam. Como se ainda fosse possível simplesmente inventar um mundo
paralelo, com bichos fantásticos, seres excêntricos e paisagens irreais. Como
se nosso imaginário – e o da artista também, por que supor diferente? – não
estivesse colonizado pelo empobrecido universo da cultura imagética no qual
vivemos, assistindo a uma sucessão de imagens facilmente codificadas, tratadas,
já prontas para o consumo. Como se ainda fosse possível para um artista pintar
cenas de lugares exóticos, afastados, distantes da civilização como fez Gauguin
no Taiti. Como se fosse possível, ainda, para a pintura, alcançar uma dimensão
humana subjetiva, psicológica, profunda como pretenderam alguns pintores
expressionistas. Como se o decorativismo de Matisse não tivesse sido capturado
pela industria, hoje sendo encontrado em diversos produtos à disposição no
mercado. E finalmente como se a cor estridente, não naturalista, das telas
fosse capaz de nos mobilizar, logo a nós que já nascemos com lógica da arte pop
incorporada. Pensem nas infinitas imagens de Marilyn Monroe que Warhol
reproduzia em suas serigrafias “pintando-as” ora de rosa, ora de azul, prateado
e por aí em diante.
Nesse conjunto de obras, seres mitológicos e animais convivem com
formas quase humanas: cavalos coloridos (mais uma remissão, dessa vez a Chagall
que, sem dúvida, os quadros de Tatiana suscitam), as pombas estilizadas, feras
com dentes afiados. E, nessa profusão de figuras, encontramos novamente temas
clássicos da pintura, muitos deles, aliás, caros a própria arte moderna que os
revisitou com frequência. Dos faunos dançando (estariam ensaiando a dança de
Matisse?) às modelos posando, deitadas em camas ou sentadas em bancos.
Aos poucos, percebemos que a jovem artista mineira mobiliza, em
sua primeira individual em São Paulo, um amplo repertório da pintura. Mais
especificamente, talvez, da pintura moderna, as obras-primas de seus grandes
mestres”, são suas principais fontes. E há algo corajoso nessa tomada de
posição, nesse gesto de recuperação, que acaba por nos sugerir que esse
material todo ainda permanece vivo, não foi suplantado pelas constantes
reviravoltas da história da arte. A primeira impressão, a de que seria uma
espécie de homenagem da artista ao que se produzia no início do século,
assumindo ares francamente conservadores, é desconstruída no contato com as
obras.
As telas originalmente foram feitas para serem exibidas sem
chassis, como panos esticados diretamente sobre a parede. Na exposição, elas
foram coladas em outras telas, comuns, pintadas com cores escuras, para serem
expostas de modo mais convencional, mas que deixa entrever a intenção inicial
de Tatiana. A artista usa tinta acrílica, e não a convencional tinta a óleo, e
isso já a distancia da grande tradição da arte. Seu modo de pintar é displicente,
quase permissivo.
Grandes trechos de alguns trabalhos
ficam sem tinta, como se estivessem inacabadas. A artista coloca em cena
“maneiras” variadas, cada uma associada a um dos movimentos de vanguarda: pinceladas
à maneira impressionista, cores à la faüve, ambientes cubistas, construídos sem
a tradicional perspectiva clássica. As referências aparecem a todo momento,
como citação, rebaixados a condição de “segunda geração”. Em alguns casos,
palavras são escritas em cima da pintura, como pichações que depredam
monumentos.
A reencenação, estratégia bastante conhecida do público que
acompanha as artes visuais hoje, adquire aqui importância fundamental. A
pergunta que surge diante dessa constatação é: afinal, por que reencenar os
clássicos? Por que nos apresentar ainda esse repertório já conhecido da pintura
moderna em novas roupagens (mais despojada, mais à vontade, menos rigorosa). O
mercado responde a essa pergunta com uma afirmação simples: remakes de filmes
antigos, ou remixes de músicas conhecidas são um produto certeiro.
Enquanto a sucesso do original assegura que o tema tem forte apelo
junto para o presente, e vice-versa). Nesse movimento, algo impalpável, nos
melhores momentos, sobrevém em forma de frescor e insubordinação bem humorada.
Uma vocação – moderna por excelência – de retomar uma tradição que parecia já
encerrada. Nas pinturas de Tatiana Cavinato talvez possam ser entendidas como
um convite a entender o modernismo de outra forma, perceber ali potencialidades
ainda ocultas. Ou ainda como o enfrentamento de ao público, as modificações
“atuais” fazem a tradução da linguagem “do passado” para os mais jovens,
acostumados ao contemporâneo. Uma receita sem muitos riscos. Mas esse
certamente não é o caso das pinturas que vemos em exposição. O compromisso da
artista não é com o mercado. A tradição moderna é tematizada, é o lugar de onde
vem as figuras e paisagens que aparecem nas telas.
“Aquário dos animais”, o título escolhido para a mostra, faz
menção a esse espaço apartado, e de certa forma isolado – o aquário. As
pinturas talvez nos façam pensar que há algo nas “grande pinturas” das
vanguardas que não se esgotou, que ainda vive, mesmo que confinado, sob o
signo de “tradição”, “passado” ou de “arte moderna”. Distantes daquilo que
usualmente identificamos como contemporâneo, elas nos exigem esse movimento de
vai-e-vem do passado um impasse histórico posto a todos aqueles que trilham o
caminho da arte.
Thais Rivitti
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

“Em seu clássico 'La condition postmoderne', Jean François Lyotard
nos lembrava que o saber científico não é todo saber. No início da noite do
século XX ele remarcou a existência do ' saber narrativo', repositório dos
costumes, da identidade e da organização das culturas. Com valor evidente em
sociedades que rotulamos de primitivas, este saber narrativo foi quase um
motivo de vergonha para a cultura ocidental que tanto se esforçou para
travesti-lo com uma roupagem racionalista que simplesmente não lhe serve.
Um pensamento que parece ganhar momento em nossos dias considera
que, assim como a pesquisa básica em campos como a física ou biologia é o que
alimenta as tecnologias, endereçadas ao mundo das coisas, a Arte constitui o
campo de experimentação do saber narrativo é nela que valores e novas formas
de se pensar as relações humanas fazem sua primeira entrada em nosso ambiente
social.
O estranhamento que experimentamos diante dos trabalhos de Tatiana
Cavinato, tem este sabor de se arriscar para além das fronteiras do conhecido.
Nosso espírito 'testa', experimenta esta confusão entre papeis
masculino/feminino, humano/animal ou moral/imoral e vai na verdade muito além
daquilo que podemos identificar e nomear.
O simples 'representar' não é nada. É a sua forma de pintar,
trabalhar as camadas de tinta, compor, exibir, misturar refinamento e
precariedade que desnorteiam nossa percepção e acoplam novos significados, para
os quais, a única maneira de atingi-los é esta: a Arte’’.
«Wagner Lungov
terça-feira, 14 de setembro de 2010
Aquário dos animais
s. título, 2009
acrílica sobre tela
56 x 41 cm
s. título , 2009
acrílica sobre tela
31 x22 cm
s. título, 2009
acrílico sobre tela
29 x22 cm
s. título, 2009
acrílica sobre cartão
49 x40 cm
s. título, 2009
acrílica sobre cartão
49 x40 cm
s. título, 2009
acrílica sobre cartão
49 x40 cm
s. título, 2009
acrílica sobre cartão
49 x40 cm
s. título, 2009
acrílica sobre tela
36 x29 cm
s. título, 2010
acrílica sobre tela
85 x20 cm
s. título, 2009
acrílica sobre tela
50 x 20 cm
s. título, 2009
acrílica sobre tela
56 x70 cm
s. título, 2010
acrílica sobre tela
54 x72 cm
s. título, 2011
acrílica sobre tela
79 x106 cm
s. título, 2011
acrílica sobre tela
73 x105 cm
A grande oferta, 2011
acrílica sobre tela
86 x51 cm
s. título, 2010
acrílica sobre tela
88 x63 cm
s. título, 2010
acrílica sobre tecido
102x73 cm
s. título, 2010
acrílica sobre tela
63 x75 cm
s. título, 2010
acrílica sobre tela
49 x71 cm
Aquário dos animais, 2010
acrílica sobre tela
99 x86 cm
s. título, 2010
acrílica sobre tela
79 x75 cm
s. título, 2010
acrílica sobre tela
79 x80 cm
s. título, 2010
acrílica sobre tela
45x58 cm
s. título, 2010
acrílica sobre tela
67x79 cm
s. título, 2010
acrílica sobre tela
83 x105 cm
“Isola!”
Malinowski me deixa contrariado quando leio sobre o conceito de
magia. O antropólogo defende a prática como algo extraordinário e
não-cotidiano nas sociedades dos “selvagens”, de forma que a magia é o artefato
a que se dispõe nos momentos mais incertos e duvidosos. Ela interfere na vida
das pessoas com a possibilidade de solucionar e viabilizar explicações que não
se bastam no universo da sabedoria e análise desses povos. Sabemos que
Malinowski foi criticado e revisado por numerosos antropólogos e cientistas
sociais do século XX, e a sua posição sobre o magismo primitivo também.
Considero importante verificar a base de todo o pensamento científico como uma
forma de entendimento da análise do tempo em que a teoria fora lançada, como
material de estudo do desenvolvimento do pensamento humano, e numa característica
um pouco fatalista, imagino a reação das pessoas em torno de devidos conceitos
e tabus, que incensados pelo conhecimento e a ciência (quase sempre errante e
perigosamente passiva), recorrem ao turbilhão de comportamentos “adequados” ao
seu tempo; algo que reside no mais humano dos dons – a consciência. Abomino
então toda e qualquer expressão que sugere que alguma pessoa/coisa “está à
frente de seu tempo”.
Mas a magia. Não seria um ato cotidiano, bem absorvido, difundido
e muito vasto mundo afora? E não é também algo que paira entre o ordinário e o
especial; que celebra e tem diversas intenções, interpretações? A magia foi
mitificada e ao mesmo tempo, desnudada. Entre figas, olhos gregos ou turcos, o
ato de tocar três vezes na madeira e dizer “isola!”, esses amuletos e palavras
aparentemente inocentes e adotados carinhosamente pela nossa linguagem corporal
brasileira, sul-americana, mundial. Truques que se amontoam ao nosso repertório
de significados. Isso não é o interesse pelo ocultismo ou práticas místicas
antigas, mas a maneira como algo disso tudo passou a existir nas vidas mais
materialistas ou religiosas, mas bem improváveis. A magia que trato aqui é
caseira, às vezes desleixada.
Aquário do mundo
Tatiana Cavinato me chama para dizer o que ouviu: o mais profundo
é a pele. Quando começamos a conversar sobre as pinturas que compõem essa
exposição eu já sabia o que queria dizer a ela, mas ainda havia algo para
complementar todas aquelas palavras que guardo desde 2008 e dos desenhos da sua
exposição Self- Service.
O contexto urbano e público aqui não é essencialmente masculino,
por isso não guarda o que há de feminino apenas no ambiente doméstico e
privado. As figuras não necessitam de limitações de gênero, porque são
mascaradas e livres, máscara para mostrar e não para esconder.
Toda a cena se configura aos poucos após a primeira ação que é
pintar, dar cor. E ela me diz que a figura faz influenciar a cor, porque não
surge como imagem pronta. Nós procuramos a ironia por causa da minha
necessidade em ver a gentileza que as imagens me sugerem e a naturalidade que
tudo se apresenta.
Observadora da rua, da linguagem e dos sentidos e fins que as
pessoas querem ou não dar a suas falas e gestos. A acidez está na subversão
desse observar, que vai de encontro com a sua narrativa pessoal e onisciente na
imagem. Entra na história que vai contar.
Os trabalhos são feitos geralmente à noite, com música, em um
ateliê cercado de árvores e guardado por cachorros agitados. Como se um filme
mudo passasse veloz, mesmo na hora em que as frases estão estampadas na tela.
Gera a distorção de dentes desejosos de fecundar bocas excitadas, com os braços
e corpos às vezes tensos ou bem calmos. Machos e fêmeas são deslocados pelo som
da música, o carnaval que chega, a máscara que não desgrudaria da cara. Não se
trata de uma festa terrena, pode ser que tudo seja espiritual. Não há problema
sobre a sexualidade. Apenas tolerância.
Essa questão entre espiritualidade e cultura popular não se
encontra somente no onírico. Ela é o reflexo do tempo e da memória; para quem
se observa e no mesmo ambiente retrata duas figuras em posições diferentes, em
corpos distintos e uma única personalidade, consciência. Sem pretender
explicar tudo ou tornar qualquer sugestão exagerada, essas pessoas retratadas
numa maquiagem evidente querem manifestar um desejo do corpo de transcender
entre e dentro de si. Vorazes e gentis nos assistem com uma perplexidade muda,
jeito de saber os nossos caminhos.
Mauro Figueiredo
O novo e o ‘antigo’ homem
“a cor, pulsão de vida, assinala nessa pintura a passagem ao ato e
o lugar do ato” Louis Cane
Em encontros espontâneos, se fundem e se confundem seres exóticos,
elementos da natureza e do humano - o novo e o antigo homem se misturam. Novo,
porque parte da transformação, o hibridismo do homem, homem-bicho, homem-coisa,
a existência (precedida pela arte) de um novo ser que surge da infinidade de
possibilidades com as quais o ser humano se depara todos os dias. Antigo porque
traz a tona questões que permeiam a humanidade desde os seus primórdios,
homem-primitivo. O nascimento, a gula, os dentes e pulsões, evidenciando
aspectos inerentes à investigação da condição humana; instintos básicos e
atemporais.
A simplicidade da forma, existente em alguns trabalhos, poderia
ser comparada a ‘bad painting’ dos anos 80 se formos ressaltar a presença da
ironia, que brinca e descarta questões da própria pintura. Ou nos remeter à
outras correntes originadas no século XX como a “Fantasia” no que diz respeito
ao domínio da imaginação, abstraindo ao máximo o mundo real, trazendo à tona
toda a espontaneidade do artista diante de uma tela. Poderíamos ainda pensar
sem hesitar, nos vestígios do expressionismo alemão, ou no neo- figurativo. Há
sim inúmeras referências que perpassam as obras mas não esgotam a liberdade com
que os elementos são utilizados ora sim, ora não, conforme melhor convir à cada
situação.
Segundo a artista, a pintura não tenta ser acabada, ela fica no
processo, no instante da criação. Vestígios do acúmulo de tentativas, o jogo e
o trabalho do pintor culminando no extrapolar os limites do quadro, os limites
do corpo, da realidade. Momentos de choque e carícia na constatação de que
todos nós, humanos, temos maneiras semelhantes de colocar para fora nossas
experiências mais secretas. A omissão, a simplicidade da forma em dias
carregados de um certo mutismo.
O ser humano físico aqui surge como um intermediário entre o mundo
psicológico interno e o universo exterior, nú, com todas as suas fragilidades e
livre de pudores ou amarras. O que é a arte senão a extensão do ser, seus
desejos mais obscuros seus caminhos mais secretos?
Ana Luiza Neves
Texto publicado no catálogo da exposição
Aquário dos Animais 2011
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
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